Comorbidades entre Distúrbios Psiquiátricos e TDAH

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Distúrbios psiquiátricos e TDAH coexistem em grande quantidade de pacientes. Isso torna-se mais claro quando identificamos que indivíduos com transtornos psiquiátricos  apresentam mais chances de manifestar sinais como hiperatividade ou dificuldade de concentração, e que pessoas com TDAH tendem a manifestar distúrbios psiquiátricos.

Neste artigo, vamos esclarecer ambos os transtornos e sua relação: como acontece, seu diagnóstico e acompanhamento médico.

Distúrbios Psiquiátricos e TDAH

Entre os distúrbios psiquiátricos apresentados pelas pessoas com TDAH, os principais são ansiedade, transtornos de humor – como depressão e bipolaridade -, além dos distúrbios do sono. Outras condições que também podem estar presentes são transtornos de personalidade, abuso de drogas, medicamentos, álcool e cigarro.

O adoecimento psíquico apresenta um processo evolutivo que sofre influências de múltiplos fatores: biológicos, psicológicos, familiares, socioeconômicos e culturais. Portanto, ainda desconhecemos a totalidade dos mecanismos fisiopatológicos e como eles interferem no curso do TDAH.

A melhor forma de garantir ao paciente um processo terapêutico adequado ainda está apoiada no diagnóstico individualizado, levando em consideração as particularidades de cada paciente.

Distúrbios Psiquiátricos e TDAH – Evidência Científica

Uma pesquisa de mestrado, realizada na Universidade Federal de Goiás, revelou o perfil epidemiológico dos transtornos psiquiátricos de crianças e adolescentes internados em um hospital de referência em Goiânia.

O estudo analisou prontuários de 1.318 pacientes menores de 18 anos e indicou que o Transtorno Bipolar é o diagnóstico mais comum, com um total de 35,4% dos pesquisados. A maioria dos pacientes com transtorno bipolar, transtorno relacionado a abuso de substâncias e transtorno mental orgânico eram homens; e em relação a transtorno depressivo e transtorno dissociativo, houve maioria feminina.

Em relação à faixa etária, houve predominância do transtorno bipolar e transtorno relacionado a abuso de substâncias na faixa etária de 15 a 18 anos. Os problemas como transtorno mental orgânico e TDAH são predominantes na faixa de 10 a 14 anos.

Comorbidades Apresentadas nestes Pacientes

De acordo com o estudo, comorbidades estiveram presentes em 46,2% dos voluntários pesquisados. Os transtornos disruptivos, caracterizados por comportamentos de transgressão de regras, comportamentos desafiadores e antissociais, registram 9,1% dos casos. A hiperatividade e o déficit de atenção também apresentam relativa importância, com 8,5% dos casos.

Dentre sintomas e síndromes descritos em prontuários, a Síndrome Psicótica foi a mais relatada (31%). Caracterizada por uma combinação de comportamento hiperativo e desatenção, além da falta de envolvimento persistente nas tarefas, a Síndrome Hipercinética (30,2%) vem em seguida, acompanhada da Síndrome Orgânica, Depressiva e Ansiosa.

A menos relatada é a Síndrome Distímica, uma forma mais branda, contudo crônica, de depressão que, em crianças e adolescentes, chega a durar um ano. O diagnóstico da distimia costuma ser de difícil solução, já que pode ser confundido com outros problemas.

Atenção aos Sintomas em Adolescentes

Este tema afeta diretamente a saúde pública, já que é comum o aparecimento de doenças que, geralmente, acometem o adulto ainda na adolescência. Entre adultos que apresentam quadros de doença psiquiátrica, 73,9% já desenvolveram o transtorno antes dos 18 anos e 50% antes dos 15 anos de idade. Graves consequências sociais e de saúde pública estão emergindo desse fato, sendo o suicídio a terceira causa de morte entre adolescentes.

No estudo, o transtorno relacionado ao abuso de substâncias é demonstrado como grave problema de saúde pública, com alta frequência como diagnóstico principal e comorbidade. Além disso, esta espécie se associa aos transtornos disruptivos e aos transtornos bipolares, o que exige muita atenção de familiares e equipe médica.

Distúrbios Psiquiátricos e TDAH – Diagnóstico

Devido a esta importante relação entre TDAH e os distúrbios psiquiátricos, um diagnóstico cuidadoso é fundamental para que o tratamento seja bem direcionado. O perfil de um adulto com TDAH inclui sinais de dificuldades acadêmicas, problemas de relacionamento interpessoal e impactos no desempenho profissional.

Sinais como estes podem se confundir com os de distúrbios psiquiátricos, fazendo com que o tratamento não contemple todos os aspectos da patologia. Assim, o trabalho conjunto de uma equipe multidisciplinar é extremamente importante, no sentido de identificar todos os sinais e sintomas e estabelecer uma terapêutica adequada.

Novas Tecnologias para o Diagnóstico

Uma nova possibilidade para melhorar o diagnóstico de adolescentes que possam ter esquizofrenia foi apresentada na revista “Schizophrenia”, editada pela “Nature”: por meio da análise da fala dos pacientes, realizada a partir do uso de algoritmos para mensurar padrões.

A técnica foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto do Cérebro, em Natal. A partir da definição de um índice de fragmentação, seria possível prever com mais rigor qual a situação do paciente. Uma das ideias é analisar as desordens do pensamento manifestadas na fala.

Sabemos que existe certa dificuldade em diferenciar a esquizofrenia de transtorno bipolar ou de comportamento. Com esta metodologia, pode haver uma melhora no diagnóstico, na ordem de 91,67%. De acordo com os cientistas, em dois relatos de 30 segundos já seria possível analisar a fala e perceber, através da transcrição, se o jovem tem ou não esquizofrenia.

Distúrbios Psiquiátricos e TDAH – Abordagens Terapêuticas

Para um tratamento adequado, precisamos considerar a relação “cérebro X mente”. Muitas pessoas ainda acreditam que uma doença mental deve ser tratada com psicoterapia, e as doenças físicas precisam de medicamentos.

Na realidade, é importante reconhecer que a psicoterapia também age no cérebro, ensinando-o novas formas de pensar, sentir e agir. Assim, o tratamento com psicoterapia é tão biológico quanto as medicações. Da mesma forma, é fundamental que o tratamento medicamentoso esteja associado às psicoterapias, com o acompanhamento frequente do médico neurologista.

Artigo publicado em: 14/06/2017.

Artigo atualizado em: 05/10/2018.

Comorbidades entre Distúrbios Psiquiátricos e TDAH
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Dr Daniel Azevedo

Dr Daniel Azevedo

Neurologista membro titular da Academia Brasileira de Neurologia e pós-graduando do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo, no Laboratório de Neurossonologia do Hospital das Clínicas. Possui título de especialista em neurossonologia concedido pela World Federation of Neurology e pela Academia Brasileira de Neurologia. Atua principalmente nos seguintes temas: doenças cerebrovasculares, hemodinâmica encefálica e neurointensivismo
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